Dissociativos são protagonistas em prova porque condensam vários conceitos numa única molécula — receptor, fisiologia cardiovascular, neurofisiologia e clínica. Aqui vão cinco questões no estilo de prova de residência, com gabarito comentado.
Questão 1 · Mecanismo
O efeito anestésico-dissociativo da cetamina é mediado primariamente por:
- Ativação de receptores GABAA.
- Antagonismo não competitivo de receptores NMDA.
- Bloqueio de canais de sódio dependentes de voltagem.
- Agonismo de receptores α₂-adrenérgicos centrais.
Questão 2 · Cardiovascular
Em um cão hígido, a administração de cetamina como agente único em dose anestésica habitualmente resulta em:
- Bradicardia e queda de débito cardíaco.
- Taquicardia, hipertensão e aumento do consumo miocárdico de O₂.
- Vasodilatação periférica intensa com hipotensão.
- Manutenção da frequência cardíaca e queda da contratilidade.
Questão 3 · Neurofisiologia
Sobre o uso de cetamina em paciente com suspeita de hipertensão intracraniana, a posição mais defensável hoje é:
- Contraindicação absoluta em qualquer dose.
- Indicada como primeira escolha para indução.
- Pode ser usada com cautela, sobretudo em combinação com ventilação controlada e coadjuvantes; o aumento de PIC clássico não é tão pronunciado quanto se ensinou.
- Aumenta sempre PIC porque vasodilata cerebralmente.
Questão 4 · Espécie e doença
Em um gato com cardiomiopatia hipertrófica (CMH) confirmada e obstrução dinâmica do trato de saída do ventrículo esquerdo, o uso de cetamina como indutor é considerado:
- Indicado por preservar pressão arterial.
- Indicado, desde que combinado com fluido em alta taxa.
- Desfavorável, pois o aumento de FC e contratilidade pioram a obstrução dinâmica.
- Indiferente — qualquer indutor tem efeito similar nessa condição.
Questão 5 · Recuperação
Sobre o "fenômeno de emergência" em pacientes que receberam cetamina como agente único, a conduta preventiva mais usada na prática veterinária é:
- Associar cetamina a um benzodiazepínico (diazepam ou midazolam) na indução.
- Aumentar a dose de cetamina.
- Usar oxigênio a 100% durante toda a recuperação.
- Aquecer o paciente antes da indução.
Onde costumam pegar
- Trocam o receptor: dizem que cetamina age em GABA. Não age. NMDA.
- Generalizam o efeito cardiovascular: em paciente normal, cetamina sobe PA. Em paciente com simpático esgotado, ela depressora — atenção ao contexto da questão.
- PIC: a alternativa “contraindicação absoluta” aparece, e o gabarito velho dava como certa. As provas estão migrando pra uma posição mais nuançada — a evidência também.
- CMH: qualquer alternativa que “preserva pressão = é boa pro coração” é armadilha. Em CMH obstrutiva, o que importa é tempo diastólico, não pressão.
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Referências
- Grimm KA, Lamont LA, Tranquilli WJ, Greene SA, Robertson SA (eds.). Veterinary Anesthesia and Analgesia: The Fifth Edition of Lumb and Jones. Wiley-Blackwell, 2015.
- Klugmann CP et al. Cardiopulmonary effects of ketamine in dogs and cats. Revisões sobre uso clínico de dissociativos em pequenos animais.