1. Fluido é fármaco
O princípio que a AAHA repete em vários parágrafos do paper: fluido tem dose, via, velocidade e objetivo terapêutico. Tratar fluido como “taxa de manutenção padrão pra todo mundo” é o mesmo erro de prescrever a mesma dose de antibiótico pra todo paciente — funciona em alguns por sorte, falha em outros por previsibilidade.
Quatro decisões em sequência sustentam a prescrição:
- Qual o déficit? Intravascular (hipovolemia), intersticial (desidratação) ou ambos.
- Qual fluido? Cristaloide isotônico, hipertônico, coloide ou hemoderivado.
- Qual via, qual velocidade? IV/IO (rápido), SC (lento), enteral (preferido quando possível).
- Como vou monitorar e quando vou parar? Parâmetros hemodinâmicos, peso corporal, balanço hídrico.
Taxas arbitrárias estão associadas a morbidade e mortalidade evitáveis — sobrecarga em uns, sub-ressuscitação em outros.
2. Os compartimentos corporais e por que importam
A distribuição da água corporal define como cada fluido vai se comportar depois de injetado:
| Compartimento | Proporção (% do peso corporal) |
|---|---|
| Intracelular | ~67% |
| Intersticial | ~25% |
| Vascular | ~8% |
O comportamento esperado por tipo de fluido:
- Isotônico (Ringer Lactato, Plasma-Lyte, Normosol-R): cerca de 25% permanece intravascular após ~45 minutos; 75% migra pro interstício. Daí a necessidade de bolus maiores que o déficit puramente vascular.
- Hipertônico (NaCl 7,2%): puxa água do interstício e do intracelular pro vascular — pequeno volume, efeito rápido, útil em ressuscitação e edema cerebral.
- Hipotônico (Normosol-M, NaCl 0,45%): migra do extracelular pro intracelular — déficits de água livre.
Ordem clássica de prioridade: trate primeiro o intravascular, depois o intersticial, por último o intracelular.
3. Quais fluidos existem e quando usar cada um
| Categoria | Função | Exemplos |
|---|---|---|
| Reposição (cristaloide isotônico) | Hipovolemia, desidratação | Ringer Lactato, Plasma-Lyte, Normosol-R |
| Manutenção (cristaloide hipotônico) | Necessidade diária basal | Normosol-M, NaCl 0,45% |
| Hipertônico | Ressuscitação rápida, edema cerebral | NaCl 7,2%, manitol |
| Coloide | Hipoalbuminemia grave, suporte oncótico | Plasma, albumina canina, HES |
Sobre as vias:
- IV ou IO: obrigatório em hipovolemia franca e perdas agudas.
- SC: 20–30 mL/kg/dose, 1–2 vezes ao dia, em pacientes leves e estáveis. Evitar NaCl 0,9% por irritação.
- Enteral: sempre que possível — sonda nasoesofágica, alimentação úmida. O sistema fisiológico nativo de reposição não tem efeitos colaterais.
4. Hipovolemia × Desidratação · não confunda
É o ponto onde mais aluno tropeça. As duas pedem prescrição diferente.
Hipovolemia (déficit intravascular)
Sinais: taquicardia, TPC prolongado, mucosa pálida, pulso fino, hipotensão, extremidades frias, alteração de consciência. Bolus em 15–30 minutos:
- Cão: 15–20 mL/kg de cristaloide isotônico.
- Gato: 5–10 mL/kg (mais sensível à sobrecarga).
Desidratação (déficit intersticial)
Sinais: turgor cutâneo reduzido, mucosa seca, olhos encovados, urina concentrada. Nunca corrigir por bolus. Calcule o déficit e reponha em 12–24 horas.
Fórmulas essenciais:
- Déficit (L) = Peso (kg) × % de desidratação
- Déficit de água livre (L) = [(Na do paciente / Na desejado) − 1] × (0,6 × Peso kg)
- Taxa total = ressuscitação + reidratação + manutenção
| Grau | Sinais clínicos | Gravidade |
|---|---|---|
| <5% | Ausentes ou imperceptíveis | Leve |
| 5–6% | Turgor levemente reduzido | Leve a moderada |
| 7–9% | Turgor reduzido, mucosa seca, olhos encovados | Moderada |
| 10–12% | Taquicardia, pulso fraco, TPC ↑ | Grave |
| ≥12% | Choque, colapso iminente | Crítica |
5. Anestesia · taxa transanestésica e hipotensão
A AAHA 2024 atualiza o que a maioria dos anestesiologistas já vinha fazendo: menos é mais. Cirurgia eletiva em paciente hígido frequentemente não precisa de fluidoterapia pós-operatória; o retorno precoce à alimentação resolve melhor.
Durante o ato anestésico:
- Cão: 5 mL/kg/h de cristaloide isotônico balanceado.
- Gato: 3–5 mL/kg/h.
- Meta de PAM: > 60 mmHg.
- Renal crônico (IRIS 3–4): não corrigir hipotensão com taxa alta — o rim doente é mais vulnerável à sobrecarga que à hipotensão moderada.
Algoritmo prático pra hipotensão transanestésica:
- Reduzir o vaporizador. Quase sempre é o primeiro passo. Anestésico inalatório em concentração desnecessária é a causa #1 de hipotensão no bloco.
- Checar FC e temperatura. Bradicardia vagal → anticolinérgico. Hipotermia → aquecimento.
- Bolus 5 mL/kg em 10 minutos. Se resolve, volta pra taxa de manutenção.
- Sem resposta → vasopressor/inotrópico. Efedrina (0,05–0,2 mg/kg IV), norepinefrina em CRI, dobutamina em CRI, epinefrina em CRI a depender do contexto.
6. Distúrbios eletrolíticos · regras de ouro
Potássio
A hipocalemia precisa de KCl em infusão, nunca em bolus direto. Limite absoluto: 0,5 mEq/kg/h. Homogeneizar o frasco antes de infundir (potássio sedimenta).
| Solução | mEq/mL | mg/mL |
|---|---|---|
| KCl 10% | 1,34 | 100 |
| KCl 19,1% | 2,56 | 191 |
| KCl 20% | 2,68 | 200 |
Dose conforme K⁺ sérico (cristaloide isotônico, 60 mL/kg/dia ≈ cão de 10 kg):
| K⁺ sérico (mEq/L) | Dose (mEq/kg/h) | Adição para 25 mL/h |
|---|---|---|
| <2,0 | 0,5 | 200 mEq/L |
| 2,0–2,5 | 0,3–0,4 | 120–160 mEq/L |
| 2,6–3,0 | 0,2–0,25 | 80–100 mEq/L |
| 3,1–3,5 | 0,1–0,15 | 40–60 mEq/L |
| >3,5 | 0,05 | 20 mEq/L |
Sódio
- Hiponatremia: corrigir até 0,5 mEq/L/h ou 10–12 mEq/L em 24h. Corrigir rápido em hiponatremia crônica = risco de síndrome de desmielinização osmótica.
- Hipernatremia: usar fluidos hipotônicos, queda máxima de 0,5 mEq/L/h. Correção rápida em hipernatremia crônica = edema cerebral.
Casos especiais
- Trauma cranioencefálico: meta PAM ≥ 80 mmHg. Manitol 0,5–1 g/kg IV em 15 min ou NaCl 7,2% 1–6 mL/kg IV em 15 min.
- Gato hipotérmico em choque: bolus conservador (5 mL/kg) com aquecimento ativo simultâneo. Ressuscitação agressiva em gato frio é fórmula pra edema pulmonar.
- Hipoglicemia: bolus de dextrose 50% diluída 1:2 a 1:4, 0,5–1 mL/kg em 2–5 min. Manter com CRI de dextrose 1,25–5%. Concentrações > 5% só em veia central.
Distúrbios crônicos (> 24–48h) corrigem devagar. A pressa contra hipo ou hipernatremia paga em SNC.
7. Sobrecarga · a iatrogenia mais comum
O capítulo que mais reforça a tese de “fluido é fármaco”. Sobrecarga não vem do paciente — vem da prescrição.
Pista numérica clássica: aumento de 10% do peso corporal a partir do basal sinaliza acúmulo significativo. Por isso a recomendação é pesar a cada 6–12h em paciente sob fluidoterapia contínua.
Sinais clínicos
- Edema de membros, pálpebras, região intermandibular.
- Descarga nasal serosa.
- Estertores pulmonares, FR elevada, queda de SpO₂.
- Novo sopro ou ritmo de galope (especialmente em gatos).
Prevenção
- Pesar a cada 6–12h e registrar balanço hídrico.
- Incluir no cálculo todos os fluidos: medicações em diluição, flushes, nutrição enteral/parenteral.
- Individualizar — taxa “padrão” não existe.
- Ultrassom point-of-care: linha B pulmonar e avaliação da veia cava ajudam a antecipar sobrecarga antes do estertor aparecer.
Mitos que a AAHA derruba
| Mito | Realidade |
|---|---|
| Fluido IV aumenta TFG em paciente normal. | Não aumenta TFG em paciente hidratado e euvolêmico. |
| Hipertensão indica hipervolemia. | Raramente — exceto em renal crônico. |
| Se está hipotenso, dá mais bolus. | Alguns pacientes não respondem. Sem resposta = parar fluido + iniciar vasopressor. |
| Hemodiálise resolve edema acumulado. | Migração de fluido do interstício pro vascular é limitada — não é o resgate que se imagina. |
Conclusão
A diretriz não é revolucionária — é uma consolidação. O que ela formaliza é o que a boa prática já vinha defendendo: prescrição individualizada, monitoração contínua, decisão de parar tão importante quanto a de começar. Quem trabalha com paciente crítico em pequenos animais deveria ler o paper inteiro ao menos uma vez; este resumo é só o atalho.
Fluidoterapia clínica do início ao fim
O GDETIV organiza fluidoterapia, eletrólitos, ressuscitação volêmica e reconhecimento de sobrecarga em trilhas com casos comentados — feito pra clínico de plantão e residente.
Referência
- Pardo M, Spencer E, Odunayo A, et al. 2024 AAHA Fluid Therapy Guidelines for Dogs and Cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2024;60:131–163.