Início Blog Prova de carga vs reposição volêmica
Fluidoterapia

Prova de carga e reposição volêmica são a mesma coisa?

Resposta curta: não. A confusão entre as duas custa caro no plantão — sobra fluido em quem não precisava, falta intervenção em quem precisava.

Os dois envolvem infusão de cristaloide, em volume parecido, em tempo parecido. O método parece igual. O objetivo é o que difere — e o que define se você está tratando o paciente ou só esperando ver o que acontece.

Reposição volêmica

É uma intervenção terapêutica. O paciente tem perda de volume intravascular já documentada — hemorragia, desidratação grave, perda gastrintestinal mensurada. Você sabe o quanto perdeu (ou tem uma estimativa razoável) e devolve fluido pra reconstituir o volume.

A decisão já foi tomada antes da bolsa começar a correr. O que muda durante a infusão é a velocidade — não o se.

Prova de carga

É uma intervenção diagnóstica. O paciente está hemodinamicamente comprometido, você suspeita que ele pode responder a volume, e administra uma carga controlada de fluido pra ver o que acontece com os parâmetros hemodinâmicos.

Como define o intensivista J.-L. Vincent, prova de carga é “a forma mais segura de administrar fluido quando se considera que pode haver benefício, mas se está incerto se o paciente vai tolerar”. A frase importa: a dúvida é o ponto de partida.

O que se mede durante a prova de carga: débito cardíaco (idealmente), pressão arterial média, lactato, frequência cardíaca, tempo de preenchimento capilar. Se a hemodinâmica melhora, o paciente é fluido-responsivo e a prova vira reposição. Se não melhora — para tudo, reavalia, considera vasopressor/inotrópico.

Por que a distinção importa

No prontuário a anotação pode até ser parecida (“cristaloide isotônico 10 mL/kg em 15 minutos”), mas o raciocínio que precede e o que sucede a infusão são diferentes:

  • Reposição: entra no plano de manejo, segue até o déficit ser corrigido (ou aparecer sinal de sobrecarga).
  • Prova de carga: termina com uma decisão. Respondeu? Continua. Não respondeu? Para. Não existe “prova de carga repetida indefinidamente” — isso vira sobrecarga iatrogênica.

Tratar todo paciente hipotenso como se fosse reposição volêmica é o atalho que enche pulmão de fluido em quem precisava era de noradrenalina. Tratar todo paciente sangrante como prova de carga é demorar pra repor o que está claramente faltando.

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Referência

  1. Vincent JL. Fluid challenges: the role of monitoring the response. Conceitos de medicina intensiva sobre fluido-responsividade.
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