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Farmacologia

Cálculo de doses: diluição, dose e infusão contínua

Três situações que aparecem todo dia na clínica: preparar uma diluição, calcular o volume de um injetável e acertar a velocidade de uma infusão. Com exercícios para você resolver e conferir na hora.

Errar um cálculo de dose não é um detalhe: é uma das falhas mais frequentes e mais evitáveis da rotina veterinária. E a boa notícia é que quase todo erro vem de duas coisas simples: unidade trocada e falta de método.

Neste post você vai passar por três blocos, partindo do mais simples: preparar uma diluição, calcular a dose de um injetável e acertar a velocidade de uma infusão. Em cada bloco tem um exercício para você resolver e conferir na hora.

Leia isso antes de continuar: ninguém aprende cálculo de dose lendo sobre cálculo de dose. Você aprende fazendo. Pegue papel e caneta, resolva cada exercício antes de abrir a resolução — inclusive os que parecerem óbvios. É a repetição que transforma o cálculo em algo automático na hora que o paciente está na sua frente.

As duas fórmulas que sustentam tudo

Não são muitas. Praticamente todo cálculo da rotina sai destas duas:

Exemplos dados em mg, mas o mesmo raciocínio vale para qualquer unidade.

C (mg/ml) = massa (mg) ÷ volume (ml) Concentração é só isso: quanto de fármaco existe em cada mililitro.
V (ml) = [ dose (mg/kg) × peso (kg) ] ÷ C (mg/ml) A dose e a concentração precisam estar na mesma unidade. Se a dose está em mcg/kg, a concentração tem que estar em mcg/ml.

A maior parte dos erros graves não está na conta, mas sim na unidade. Um mcg lido como mg é um erro de mil vezes. Antes de multiplicar qualquer coisa, converta tudo para a mesma unidade e só depois faça a conta.

ConversãoComo fazer
g → mgmultiplicar por 1.000
mg → mcgmultiplicar por 1.000
mcg → mgdividir por 1.000
l → mlmultiplicar por 1.000
% → mg/mlmultiplicar por 10 (2% = 20 mg/ml)
Equipo macrogotas1 ml = 20 gotas
Equipo microgotas1 ml = 60 gotas

1. Preparo de diluição: a ceftriaxona

Todo pó liofilizado chega até você sem concentração. O frasco de ceftriaxona diz apenas "1 g". Um grama em quê? Só depois que você adiciona o diluente é que existe uma concentração e é você quem a define.

Pegue o frasco de ceftriaxona dissódica de 1 g e um flaconete de 10 ml de água para injeção. Injete os 10 ml no frasco e agite até dissolver. O que você tem agora:

C = 1.000 mg ÷ 10 ml = 100 mg/ml (ou 10%)

Em geral, desconsideramos o volume ocupado pelo pó ao calcular a concentração final.

Repare no primeiro passo: 1 g virou 1.000 mg antes de qualquer conta. Se você tivesse usado 5 ml de diluente, a mesma massa daria 200 mg/ml (20%). A massa do frasco não muda, quem muda a concentração é o volume que você escolhe adicionar.

Anote no frasco. Assim que reconstituir, escreva na etiqueta a concentração final, a data e a hora. Um frasco reconstituído sem anotação é um erro de dose esperando para acontecer no próximo plantão — muitas vezes, a pessoa que administra não é a mesma que diluiu.

Exercício 1 · aquecimento

Diluindo um liofilizado para uma concentração-alvo

Você tem um frasco de remifentanil de 2 mg (pó liofilizado) e ampolas de cloreto de sódio 0,9%. Precisa preparar uma solução na concentração final de 500 mcg/ml.

Quantos ml de diluente você deve injetar no frasco?

2. Dose de um injetável: ainda a ceftriaxona

Agora que a solução existe (100 mg/ml), o cálculo da dose é a segunda fórmula, direto. Um cão de 12 kg vai receber ceftriaxona na dose de 25 mg/kg:

V = (25 mg/kg × 12 kg) ÷ 100 mg/ml = 300 mg ÷ 100 mg/ml = 3 ml

Duas contas, na ordem: primeiro quanta massa o paciente precisa (300 mg), depois em quantos ml essa massa está (3 ml). Quem separa esses dois passos praticamente não erra — quem tenta fazer tudo de cabeça, sim.

E note como a concentração que você escolheu lá atrás muda o volume da seringa: se tivesse reconstituído com 5 ml (200 mg/ml), os mesmos 300 mg seriam 1,5 ml. A dose é a mesma; o volume, não.

Quando o volume fica pequeno demais

É aqui que a rotina complica. Em paciente pequeno com fármaco concentrado, o volume calculado cai para uma faixa que nenhuma seringa mede com precisão. Aspirar "mais ou menos" 0,02 ml não é aproximação — é erro de dose. A saída é rediluir: transformar o fármaco em uma solução mais fraca, para trabalhar com um volume que a seringa realmente enxerga.

Exercício 2 · rediluição

Meloxicam 2% em cão de porte pequeno

Você precisa administrar meloxicam 2% em um cão de 4 kg, na dose de 0,1 mg/kg. Lembre que 2% = 20 mg/ml.

a) Qual o volume na apresentação original a 2%?
b) Para rediluir, você aspira 0,5 ml do meloxicam 2% e completa com 4,5 ml de NaCl 0,9% (5 ml no total). Qual a nova concentração, em mg/ml?
c) Qual o volume a administrar dessa nova solução?

Prepare a diluição na hora e identifique a seringa. Solução rediluída sem etiqueta é a receita clássica do erro por troca de seringa — e, em fármaco concentrado, esse erro costuma ser de 10 vezes para cima.

3. Infusão contínua: o mesmo raciocínio, com o tempo junto

A infusão parece outro universo, mas é a mesma lógica com uma variável a mais: o tempo. Em vez de "quantos ml agora", a pergunta passa a ser "quantos ml por hora".

E ela começa pela conta mais simples de todas. A taxa vem prescrita em ml/kg/h e a bomba pede ml/h — basta multiplicar pelo peso:

Velocidade (ml/h) = taxa (ml/kg/h) × peso (kg) Um cão de 10 kg a 5 ml/kg/h corre a 50 ml/h. Sem bomba, no macrogotas: 50 × 20 ÷ 60 ≈ 17 gotas/min.

Quando entra fármaco diluído na bolsa, muda só um passo antes desse: você precisa descobrir quanto de fármaco tem que existir em cada mililitro para que a velocidade já entregue a dose certa — ou seja, volta a ser a conta de concentração do bloco 1. É por isso que quem domina diluição aprende infusão rápido. Vale um alerta: com o fármaco na bolsa, mexer na fluidoterapia é mexer na dose; se a velocidade precisa variar sozinha, o lugar do fármaco é a bomba de seringa em via separada.

Exercício 3 · infusão

Fluidoterapia transoperatória em gato

Gato de 4,2 kg em procedimento cirúrgico. Você vai manter a fluidoterapia transoperatória na taxa de 3 ml/kg/h, em bomba de infusão.

Em que velocidade programar a bomba, em ml/h?

O que levar dessas três contas

  • Converta antes de calcular. Dose e concentração na mesma unidade, sempre. É a origem da maioria dos erros de mil vezes.
  • Separe massa e volume. Primeiro quanta massa o paciente precisa, depois em quantos ml ela está.
  • Volume que a seringa não mede não é dose. Se caiu abaixo de ~0,05 ml, rediluia.
  • Em infusão, siga as unidades da taxa. ml/kg/h × peso já entrega o ml/h da bomba — e, com fármaco na bolsa, o resto é a mesma conta de concentração.
  • Anote tudo que você diluiu. Concentração, data e hora, no frasco e na seringa.

Acertou os três exercícios? Ótimo — agora faça mais dez. Errou algum? Melhor ainda: você acabou de descobrir exatamente onde está o seu ponto fraco. Cálculo de dose é habilidade motora, não conteúdo teórico: só vira automatismo com repetição. Faça exercícios até o raciocínio sair antes da calculadora.

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Aqui foram 3 exercícios. No CCD são 64.

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