Errar um cálculo de dose não é um detalhe: é uma das falhas mais frequentes e mais evitáveis da rotina veterinária. E a boa notícia é que quase todo erro vem de duas coisas simples: unidade trocada e falta de método.
Neste post você vai passar por três blocos, partindo do mais simples: preparar uma diluição, calcular a dose de um injetável e acertar a velocidade de uma infusão. Em cada bloco tem um exercício para você resolver e conferir na hora.
Leia isso antes de continuar: ninguém aprende cálculo de dose lendo sobre cálculo de dose. Você aprende fazendo. Pegue papel e caneta, resolva cada exercício antes de abrir a resolução — inclusive os que parecerem óbvios. É a repetição que transforma o cálculo em algo automático na hora que o paciente está na sua frente.
As duas fórmulas que sustentam tudo
Não são muitas. Praticamente todo cálculo da rotina sai destas duas:
Exemplos dados em mg, mas o mesmo raciocínio vale para qualquer unidade.
A maior parte dos erros graves não está na conta, mas sim na unidade. Um mcg lido como mg é um erro de mil vezes. Antes de multiplicar qualquer coisa, converta tudo para a mesma unidade e só depois faça a conta.
| Conversão | Como fazer |
|---|---|
| g → mg | multiplicar por 1.000 |
| mg → mcg | multiplicar por 1.000 |
| mcg → mg | dividir por 1.000 |
| l → ml | multiplicar por 1.000 |
| % → mg/ml | multiplicar por 10 (2% = 20 mg/ml) |
| Equipo macrogotas | 1 ml = 20 gotas |
| Equipo microgotas | 1 ml = 60 gotas |
1. Preparo de diluição: a ceftriaxona
Todo pó liofilizado chega até você sem concentração. O frasco de ceftriaxona diz apenas "1 g". Um grama em quê? Só depois que você adiciona o diluente é que existe uma concentração e é você quem a define.
Pegue o frasco de ceftriaxona dissódica de 1 g e um flaconete de 10 ml de água para injeção. Injete os 10 ml no frasco e agite até dissolver. O que você tem agora:
Em geral, desconsideramos o volume ocupado pelo pó ao calcular a concentração final.
Repare no primeiro passo: 1 g virou 1.000 mg antes de qualquer conta. Se você tivesse usado 5 ml de diluente, a mesma massa daria 200 mg/ml (20%). A massa do frasco não muda, quem muda a concentração é o volume que você escolhe adicionar.
Anote no frasco. Assim que reconstituir, escreva na etiqueta a concentração final, a data e a hora. Um frasco reconstituído sem anotação é um erro de dose esperando para acontecer no próximo plantão — muitas vezes, a pessoa que administra não é a mesma que diluiu.
Diluindo um liofilizado para uma concentração-alvo
Você tem um frasco de remifentanil de 2 mg (pó liofilizado) e ampolas de cloreto de sódio 0,9%. Precisa preparar uma solução na concentração final de 500 mcg/ml.
Quantos ml de diluente você deve injetar no frasco?
1. Iguale as unidades: 2 mg = 2.000 mcg
2. Você quer 500 mcg em cada 1 ml
3. V = massa ÷ C = 2.000 mcg ÷ 500 mcg/ml = 4 ml
Injete 4 ml de NaCl 0,9% no frasco: 2.000 mcg em 4 ml = 500 mcg/ml. Se você tivesse deixado a massa em mg e a concentração em mcg, o resultado sairia mil vezes errado — e é exatamente aí que a maioria erra.
2. Dose de um injetável: ainda a ceftriaxona
Agora que a solução existe (100 mg/ml), o cálculo da dose é a segunda fórmula, direto. Um cão de 12 kg vai receber ceftriaxona na dose de 25 mg/kg:
Duas contas, na ordem: primeiro quanta massa o paciente precisa (300 mg), depois em quantos ml essa massa está (3 ml). Quem separa esses dois passos praticamente não erra — quem tenta fazer tudo de cabeça, sim.
E note como a concentração que você escolheu lá atrás muda o volume da seringa: se tivesse reconstituído com 5 ml (200 mg/ml), os mesmos 300 mg seriam 1,5 ml. A dose é a mesma; o volume, não.
Quando o volume fica pequeno demais
É aqui que a rotina complica. Em paciente pequeno com fármaco concentrado, o volume calculado cai para uma faixa que nenhuma seringa mede com precisão. Aspirar "mais ou menos" 0,02 ml não é aproximação — é erro de dose. A saída é rediluir: transformar o fármaco em uma solução mais fraca, para trabalhar com um volume que a seringa realmente enxerga.
Meloxicam 2% em cão de porte pequeno
Você precisa administrar meloxicam 2% em um cão de 4 kg, na dose de 0,1 mg/kg. Lembre que 2% = 20 mg/ml.
a) Qual o volume na apresentação original a 2%?
b) Para rediluir, você aspira 0,5 ml do meloxicam 2% e completa com 4,5 ml de NaCl 0,9% (5 ml no total). Qual a nova concentração, em mg/ml?
c) Qual o volume a administrar dessa nova solução?
a) V = (0,1 mg/kg × 4 kg) ÷ 20 mg/ml = 0,4 mg ÷ 20 = 0,02 ml
b) Massa aspirada = 0,5 ml × 20 mg/ml = 10 mg → C = 10 mg ÷ 5 ml = 2 mg/ml (0,2%)
c) V = (0,1 mg/kg × 4 kg) ÷ 2 mg/ml = 0,4 mg ÷ 2 = 0,2 ml
Os 0,02 ml do item (a) são impossíveis de aspirar com precisão, mesmo em seringa de 1 ml. Ao diluir 10 vezes, o volume também sobe 10 vezes: 0,2 ml — um valor que a seringa de 1 ml mede sem drama.
Repare que a massa administrada é exatamente a mesma nos dois casos: 0,4 mg. A rediluição não muda a dose, muda só a precisão com que você consegue entregá-la.
Prepare a diluição na hora e identifique a seringa. Solução rediluída sem etiqueta é a receita clássica do erro por troca de seringa — e, em fármaco concentrado, esse erro costuma ser de 10 vezes para cima.
3. Infusão contínua: o mesmo raciocínio, com o tempo junto
A infusão parece outro universo, mas é a mesma lógica com uma variável a mais: o tempo. Em vez de "quantos ml agora", a pergunta passa a ser "quantos ml por hora".
E ela começa pela conta mais simples de todas. A taxa vem prescrita em ml/kg/h e a bomba pede ml/h — basta multiplicar pelo peso:
Quando entra fármaco diluído na bolsa, muda só um passo antes desse: você precisa descobrir quanto de fármaco tem que existir em cada mililitro para que a velocidade já entregue a dose certa — ou seja, volta a ser a conta de concentração do bloco 1. É por isso que quem domina diluição aprende infusão rápido. Vale um alerta: com o fármaco na bolsa, mexer na fluidoterapia é mexer na dose; se a velocidade precisa variar sozinha, o lugar do fármaco é a bomba de seringa em via separada.
Fluidoterapia transoperatória em gato
Gato de 4,2 kg em procedimento cirúrgico. Você vai manter a fluidoterapia transoperatória na taxa de 3 ml/kg/h, em bomba de infusão.
Em que velocidade programar a bomba, em ml/h?
3 ml/kg/h × 4,2 kg = 12,6 ml/h
Repare que o kg some na conta: a taxa é "por quilo, por hora", então multiplicar pelo peso já deixa o resultado em ml/h — exatamente a unidade que a bomba pede. (Se você arredondou para 13 ml/h, sem problema: bomba que só aceita número inteiro obriga a isso.)
Se não houvesse bomba, era só converter: 12,6 ml/h × 20 gotas ÷ 60 min ≈ 4 gotas/min no equipo macrogotas, ou 12,6 gotas/min no microgotas (nele, o valor em gotas/min é igual ao de ml/h).
O que levar dessas três contas
- Converta antes de calcular. Dose e concentração na mesma unidade, sempre. É a origem da maioria dos erros de mil vezes.
- Separe massa e volume. Primeiro quanta massa o paciente precisa, depois em quantos ml ela está.
- Volume que a seringa não mede não é dose. Se caiu abaixo de ~0,05 ml, rediluia.
- Em infusão, siga as unidades da taxa. ml/kg/h × peso já entrega o ml/h da bomba — e, com fármaco na bolsa, o resto é a mesma conta de concentração.
- Anote tudo que você diluiu. Concentração, data e hora, no frasco e na seringa.
Acertou os três exercícios? Ótimo — agora faça mais dez. Errou algum? Melhor ainda: você acabou de descobrir exatamente onde está o seu ponto fraco. Cálculo de dose é habilidade motora, não conteúdo teórico: só vira automatismo com repetição. Faça exercícios até o raciocínio sair antes da calculadora.
Aqui foram 3 exercícios. No CCD são 64.
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